Textos

MST - Movimento dos Trabalhadores Sem Terra

Um operário reflete sobre o salário que recebe

Feitas as contas, o patrão paga-me dois reais a hora de trabalho. Meio quilo de carne também custa dois reais. Com o mesmo dinheiro, o patrão compra ou meio quilo de carne ou uma hora do meu trabalho. Tanto a carne quanto a minha hora de trabalho são mercadorias. Ao preço da minha mercadoria é que dão o nome de salário.

Sou tecelão. Tempos houve eu pensei que em cada metro de tecido que teço havia uns tantos centímetros que correspondiam ao meu trabalho. Mas depois li muito, conversei com os camaradas do Sindicato e pensei: o patrão paga-me por semana. Eu demoro quatro ou cinco semanas para tecer uma peça. Recebo antes da peça estar tecida. Recebo antes da peça estar vendida. O dinheiro com que o patrão me paga é da reserva de dinheiro que ele tem, não é o dinheiro que ele irá realizar ao vender a peça. E se não vender a peça, o que pode acontecer, porque a moda muda, o patrão não virá pedir-me para reembolsa-lo dos tantos centímetros que eu teria por metro do pano. Da mesma forma, não irá pedir reembolso ao seu fornecedor de fio. E tanto o fio, quanto a minha força de trabalho são mercadorias que o patrão comprou. A minha mercadoria é a minha força de trabalho. A única. E o preço por que eu vendo é o meu salário. O meu salário é o meu único rendimento.

Dizem que sou livre. Talvez seja, mas duvido que o seja. Se eu perder o emprego, porque sou um bom tecelão, logo arranjarei outro e passarei a vender a minha força de trabalho para outro patrão qualquer. Essa será a minha liberdade. Trabalhar para viver e viver para trabalhar, essa será a minha liberdade. É bem verdade que não sou mais escravo de um dono, de um patrão, como os trabalhadores de antigamente. Em contrapartida, e porque só tenho a minha força de trabalho para vender, a minha liberdade é ser escravo da classe dos patrões.

Há amigos que me dizem que ganho dezesseis reais por dia útil de trabalho e que, num dia não gasto dezesseis reais comigo. É bem verdade o que os meus amigos me dizem. Mas também é verdade que os dezesseis reais por dia útil de trabalho me chegam justo para me sustentar e a minha família.

E também é verdade que o patrão, ao comprar um tear novo que calcula fazer funcionar durante os próximos dez anos, todos os anos, põe de lado, dos lucros, um décimo do valor do tear e, quando o tear deixar de funcionar, já terá dinheiro para comprar um novo. Assim procede comigo o patrão. Paga-me mais do que eu gasto comigo e, com esse excesso, constituo família. Quando eu estiver gasto e não puder trabalhar mais, os meus filhos irão trabalhar por mim na sua fábrica, ou na fábrica de outro patrão. Eles lá se entendem, porque filhos de operário, operários são, e filhos de burguês, burgueses são. O patrão amortiza-me como se eu fosse um tear. Para o patrão, sou uma máquina que se reproduz. Não falo do meu patrão em particular, que é até capaz de ser um bom tipo. Falo é da classe dos patrões que exploram a classe dos operários.

Outros amigos me dizem que é exagero, que o patrão não me explora, que afinal paga-me as oito horas que trabalho. Mas eu sei fazer contas. Sei quanto vale cada metro de tecido que teço. Sei a quanto ele compra cada quilo de fio. Sei quanto fio vai por metro de tecido. Sei quantos metros teço por hora. Sei que se o tear fosse meu, para ganhar dezesseis reais por dia com a venda do tecido que eu tecesse, só precisava trabalhar quatro horas por dia. E eu trabalho oito. Dou de graça quatro horas do meu trabalho ao meu patrão. E só porque lhas dou de graça é que ele tem interesse em se meu patrão. Se trabalho meio dia de graça, sou meio escravo. Mas se pensar que também os escravos comiam e faziam filhos, sou capaz é de ser escravo inteiro. E, no entanto, de graça e de boa vontade eu trabalhava quatro horas por dia, se o produto delas revertesse a favor de toda a classe dos trabalhadores e não a favor de quem vive à custa do trabalho dos outros.

A Questão Agrária

O que é, e porque discutir questão agrária no EIV?

Discutir a questão agrária é fundamental para compreendermos o contexto em que surgem e lutam, até hoje, os movimentos sociais campesinos que participam do EIV. Mais do que isso, é tentar compreender, através de uma análise histórica, como se deu a formação do Estado e da Sociedade Brasileira.

A questão agrária diz respeito às relações de produção no campo, ou seja, às questões sociais e econômicas ligadas ao aspecto técnico da produtividade em si. Quando falamos em “questão agrária” falamos da organização do trabalho e da produção, do nível de renda e emprego, da concentração de terras, das condições de vida dos agricultores e assim por diante. Impossível, portanto, falar e questão agrária, relações de produção e vida no campo, sem termos claro que o pano de fundo de tudo isso é a formação e o desenvolvimento do Capitalismo no Brasil e no mundo. Vamos então tratar da questão agrária como um processo histórico que culmina, no século XXI, na atuação das grandes multinacionais no campo.

A concentração desde o início

A partir de 1532, um tempo depois da chegada – ou será invasão? – portuguesa no Brasil, iniciou-se o processo de ocupação e colonização de nossas terras. A colonização foi se consolidando através das Capitanias Hereditárias e do Sistema de Sesmarias, que consistiam em imensas faixas de terras cedidas pela Coroa a particulares para que tomassem conta dessas áreas. Isso acarretou na grande concentração de terras, poder e influência na mão de poucos homens. Até 1850, enquanto perdurou o sistema de sesmarias e a escravidão no Brasil, nossa economia era baseada no latifúndio monocultor agro-exportador escravocrata. Em grandes extensões de terras pertencentes a apenas um senhor do engenho, dono de negros, homens, mulheres e crianças, plantava-se cana-de-açúcar e café para exportação.


A Lei de Terras e o aprimoramento do sistema capitalista no Brasil.

As Capitanias Hereditárias e o Sistema de Sesmarias foram, ao poucos, tornando-se obsoletos e não mais interessantes à burguesia que se formava no país, além de serem palco de conflitos em especial no Sudeste cafeeiro. Em 1850, concomitante com a abolição oficial da escravatura foi editada a primeira Lei de Terras no Brasil (Lei 601 de 18 de setembro de 1850). Tal lei estabeleceu restrições à posse da terra. Poderiam ser posseiros aqueles que pudessem arcar com a compra de terras e de mão-de-obra.

Finalmente a terra tornou-se mercadoria, a qual pouquíssimos teriam acesso e exerceriam esse direito de forma absoluta e quase sagrada. Dizia o preâmbulo e o artigo 1o dessa lei: “D. Pedro II, por Graça de Deus e Unanime Acclamação dos Povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpetuo do Brasil: Fazemos saber a todos os Nossos Súbditos, que a Assembléa Geral Decretou, e Nós queremos a Lei seguinte: Art. 1o Ficam prohibidas as acquisições de terras devolutas por outro titulo que não seja o de compra”

Para Morissawa, autor do livro “A história da luta pela terra e o MST”: “a Lei de Terras significou o casamento do capital com a propriedade da terra. Com isso a terra foi transformada em uma mercadoria à qual somente os ricos poderiam ter acesso. (…) Com a Lei de Terras, nem uns nem outros – ex-escravos e imigrantes – teriam acesso à terra, que permaneceria concentrada nas mãos dos latifundiários de sempre e de seus herdeiros.” (pág. 71). É nesse momento que ocorre a institucionalização da concentracão das terras no Brasil.

O povo organizado e a luta pela terra

A partir dessa formação de concentração, durante a Republica, manteve-se a estrutura fundiária apesar dos aparentes esforços dos governos em promover uma melhor distribuição de terras. No entanto o que ocorreu foi o Coronelismo, o Populismo, um processo irracional de industrialização e a expulsão de camponeses do campo. Diante desse cenário o povo se organizou, e ao contrario do que querem nos fazer acreditar, lutou. Diversas lutas forma travadas,
desde Canudos e Contestado até as Ligas Camponesas. No inicio da década de 50 surge, na Paraíba, a Liga Camponesa, organização de agricultores que resistiram à expulsão das terras e que foi o gérmen de grandes movimentos de trabalhadores rurais, como o MST.

A industrialização e a modernização da Agricultura

Em meados da década de sessenta operou-se no campo uma grande “modernização” nos meios de produção. Novas técnicas, máquinas, insumos e o melhoramento genético de sementes permitiram um incrível aumento da produção agrícola.

No entanto esse modelo gerou ainda mais exclusão e
concentração das terras. A expulsão dos camponeses tornou-se ainda mais intensa uma vez que as grandes propriedades dispensavam mão-de-obra humana, e o custo para sobreviver em meio ao latifúndio era alto demais. Além disso a produção de alimentos aumentou ao mesmo tempo em que a fome no Brasil assolava – e ainda assola – milhões. A produção era toda exportada, restando aos brasileiros Era a tecnologia a serviço do capitalismo e da exclusão.

Século XXI: O “agronegócio”

Agronegócio é um termo amplo, criado para referir-se não apenas à grande produção agrícola, mas também diz respeito a outros setores relacionados, como transportes, insumos, indústria, distribuição e exportação. Esse modelo baseado no latifúndio é uma ideologia, uma forma de justificar o lucro desmedido de poucos, a destruição do meio-ambiente, a exclusão, a desigualdade, a exploração de trabalhadores e trabalhadoras com o discurso da produtividade, da produção de alimentos e de empregos. O povo e os movimentos sociais se perguntam: “Que agronegócio é esse? Por que a agricultura e a pecuária crescem sem beneficiar a população brasileira, geram cada vez menos empregos, enquanto provocam danos ambientais devastadores?” (Revista FASE, 2005).

Nesse novo cenário aparecem as grandes empresas transnacionais, materialização de uma das facetas do Capitalismo Financeiro Globalizado. Essas empresas revestem-se de personalidade jurídica internacional sob um manto quase impenetrável. Praticamente impossível saber quem é o presidente ou, ao menos, o responsável pela Nike ou pelo MC ́Donalds. Mais difícil ainda é saber onde essas empresas se localizam. Seus funcionários estão por aí. Seus representantes e prédios também. Mas elas se fazem presente no mundo, nos governos, e na vida das pessoas ao redor do planeta. Na agricultura essas empresas empreenderam uma grande ofensiva nos países que, segundo elas, “estão em desenvolvimento e possuem grande potencial agrícola”, dentre eles o Brasil.

Seus objetivos consistem no desenvolvimento e testes de sementes geneticamente modificadas, agrotóxicos pesadíssimos, patenteamento dos recursos naturais locais, domínio das sementes e, conseqüentemente, do mercado de alimentos. Para tanto efetuam a compra de grandes extensões de terras, fazem grande lobby no governo e na sociedade civil, usam de propaganda, e, principalmente empreendem incrível criminalização e violência contra os movimentos sociais e o povo que luta por um outro modelo de agricultura e de sociedade.

BIBLIOGRAFIA:

    • DA SILVA, José Graziano. O que é questão agrária. 12 ed. São
      Paulo, Brasiliense, 1986.
      FASE. Revista: Que agronegócio é esse?. Rio de Janeiro, 2005
      MORISSAWA, Mitsue. A história da luta pela terra e o MST. São
      Paulo: Expressão Popular, 2001
  • Se os tubarões fossem homens

    Se os tubarões fossem homens, perguntou ao senhor K. a filha de sua senhoria, eles seriam mais amáveis com os peixinhos?

    Certamente, disse ele. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e tomariam toda espécie de medidas sanitárias. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, lhe fariam imediatamente um curativo, para que não morresse antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres tem melhor sabor do que os tristes.

    Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.

    O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam voltar toda inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e avisar imediatamente os tubarões, se um deles mostrasse tais tendências.

    Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, iriam proclamar, são notoriamente mudos, mas silenciam em linguas diferentes, e por isso não podem se entender. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de argaço e receberia um título de herói.

    Se os tubarões fossem homens, naturalmente haveria também arte entre eles. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores soberbas, e suas goelas como jardim que se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos nadando com entusiasmo para as gargantas dos tubarões, e a música seria tão bela, que seus acordes todos os peixinhos, como orquestra na frente, sonhando, embalados, nos pensamentos mais doces, se precipitariam nas gargantas dos tubarões.

    Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa apenas na barriga dos tubarões. Além disso se os tubarões fossem homens também acabaria a idéia de que os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores poderiam inclusive comer os maiores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles teriam com maior freqüência, bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, construtores de gaiolas, etc. Em suma, haveria uma civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

    Aos que virão depois de nós

    Eu vivo em tempos sombrios.
    Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
    uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
    Aquele que ainda ri é porque ainda não
    recebeu a terrível notícia.

    Que tempos são esses, quando
    falar sobre flores é quase um crime.
    Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
    Aquele que cruza tranqüilamente a rua
    já está então inacessível aos amigos
    que se encontram necessitados?

    É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
    Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
    Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
    Por acaso estou sendo poupado.
    (Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

    Dizem-me: come e bebe!
    Fica feliz por teres o que tens!
    Mas como é que posso comer e beber,
    se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
    se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?
    Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

    Eu queria ser um sábio.

    Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
    Manter-se afastado dos problemas do mundo
    e sem medo passar o tempo que se tem para
    viver na terra;
    Seguir seu caminho sem violência,
    pagar o mal com o bem,
    não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
    Sabedoria é isso!
    Mas eu não consigo agir assim.
    É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

    II

    Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
    quando a fome reinava.
    Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta
    e me revoltei ao lado deles.
    Assim se passou o tempo
    que me foi dado viver sobre a terra.
    Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
    deitei-me entre os assassinos para dormir,
    Fiz amor sem muita atenção
    e não tive paciência com a natureza.
    Assim se passou o tempo que me foi dado viver sobre a terra.

    III

    Vocês, que vão emergir das ondas
    em que nós perecemos, pensem,
    quando falarem das nossas fraquezas,
    nos tempos sombrios
    de que vocês tiveram a sorte de escapar.

    Nós existíamos através da luta de classes,
    mudando mais seguidamente de países que de
    sapatos, desesperados!
    quando só havia injustiça e não havia revolta.

    Nós sabemos:
    o ódio contra a baixeza
    também endurece os rostos!
    A cólera contra a injustiça
    faz a voz ficar rouca!
    Infelizmente, nós,
    que queríamos preparar o caminho para a amizade,
    não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
    Mas vocês, quando chegar o tempo
    em que o homem seja amigo do homem,
    pensem em nós
    com um pouco de compreensão.

    Uma resposta

    1. Olá,

      Vocês poderiam ver, consultar as obras, os escritos e orientações de mestrado que realizamos acerca do MST. Bem como so documentários elaborados ao longo deste últimos 20 anos de produção científica.

      atenciosmente,

      Prof. Dr. Paulo Bassani

      OBS: Ver projeto desativado: “Vivências e Intercâmbios e assentamentos rurais do norte do Paraná” estava registrado na PROEX da UEL desde 1999.

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