Objetivos do EIV
A discussão teórica sobre os objetivos e princípios dos EIV´s sempre se faz necessária e de fundamental importância para o avanço metodológico e político de tal experiência. Como citado acima, os EV´s surgem com um objetivo, que ao longo da construção histórica e do acúmulo de outras experiências, pelo país, fez com que este instrumento avançasse em seus objetivos.
Sendo assim, abordar-se-á os objetivos do EIV sobre o prisma da elevação do nível de consciência dos estudantes e da formação político-pedagógica comprometida com as causas sociais. Pois segundo Iasi (2001), “(…) a transformação das consciências não está além da luta política e da materialidade onde esta se insere. É ao mesmo tempo um produto da transformação material da sociedade e um meio político de alcançar tal transformação”.
Com isso, acredita-se que os EIV´s tenham diferentes objetivos, em especial para quem os constrói, pois ME, MSP´s e estagiários possuem diferentes condições concretas e subjetivas que devem ser consideradas. Ousar-se-á apontar aqui alguns objetivos comuns às organizações que constroem os EIV´s, fruto das discussões e reflexões no conjunto da FEAB e do ME, em especial em MG na construção dos EIV´s – estaduais.
Portanto, de forma sintética, visa-se como objetivo: a elevação da consciência crítica e reflexiva dos estudantes; o despertar da indignação e da percepção para as demandas sociais; a interdisciplinaridade; a disciplina; o trabalho coletivo; o contato com a realidade agrária e agrícola do país; o questionamento da formação convencional passada pelas universidades; a relação orgânica entre os MSP´s e ME; a capacidade de articular conhecimentos empíricos e teóricos visando a solução de problemas sociais e técnicos; a capacidade de desenvolvimento da apreendizagem, observação e participação junto a realidade dos agricultores, entre outras.
Princípios do EIV
Princípios norteadores
A discussão sobre os princípios norteadores dos EIV´s também avançou com o acúmulo das experiências construídas ao longo dos tempos, pois a organização dos estágios representa um exercício pedagógico e metodológico ímpar, que faz com que os princípios sejam sempre debatidos, reafirmados e ampliados. De forma sucinta será descrito aqui, os princípios básicos dos EIV´s, que são a parceria, a interdisciplinaridade e a não intervenção, e aos quais dar-se-á maior ênfase.
A parceria surge como princípio desde as primeiras edições dos estágios, pois os EIV´s são eventos construídos de forma coletiva, e para sua realização faz-se necessário à relação orgânica entre os estudantes e os trabalhadores rurais, indígenas, pescadores, pois cada entidade possui suas especificidades, e por sua vez diferentes objetivos, que deverão ser sempre respeitados e contemplados na construção conjunta.
A interdisciplinaridade passa a fazer parte dos EIV´s em um segundo momento, quando da realização do II EV no Paraná, o que representa um grande avanço para esta experiência, pois além de abranger outras áreas do conhecimento, o que é garantido pela participação de estudantes de outros cursos, inicia-se uma reflexão sobre a transversalidade do estágio. Com isso, as ciências humanas, ciências sociais, ciências da saúde, dentre outras se apoderam desta experiência e tornam-se atores sociais fundamentais na construção dos EIV´s.
A construção coletiva e a interdisciplinaridade impulsionam a ação dos estudantes nas universidades, e o processo de questionamento da formação profissional e do papel social da universidade ganha força ampliando assim as relações entre os estudantes de diferentes cursos, o que fortalece o ME. O princípio da não-intervenção surge da maturidade da relação entre o ME e os MSP´s, e se apresenta como um dos princípios fundamentais, pois cumpre um papel pedagógico na realização do estágio.
Diferente dos estágios convencionais oferecidos pelas universidades, onde o estagiário utiliza a realidade do estágio para testar seus conhecimentos, o EIV tem como objetivo a construção conjunta do conhecimento, o que se da na relação entre o estudante e o trabalhador e não do estudante para o trabalhador como costuma ser.
Outro fato importante a ser considerado é o período de realização da vivência, que geralmente é de 15 dias, com isso o estudante não tem condições de fazer uma avaliação da realidade do assentamento, acampamento ou comunidade, e caso o faça, o risco de uma interpretação errônea é ampliado, o que pode se concretizar em uma ação autoritária, assistencialista e inorgânica por parte do estudante. Tais ações são bastante comuns na relação entre estudantes e comunidades rurais ou urbanas, e os prejuízos são inúmeros, em especial a decepção da comunidade em função da expectativa gerada.
Sendo assim é na busca por uma outra relação entre estudante e trabalhadores que o EIV se constitui como um importante instrumento de luta. Pois segundo Freire (2002, p. 25),
“(…) educar e educar-se, na prática da liberdade, é tarefa daqueles que sabem que pouco sabem – por isto sabem que sabem algo e podem assim chegar a saber mais – em diálogo com aqueles que, quase sempre, pensam que nada sabem, para que estes, transformando seu pensar que nada sabem em saber que pouco sabem, possam igualmente saber mais”.

