Histórico

Sebastião Salgado, "Terra"

Um breve histórico sobre a construção dos EIV´s no Brasil

As reformas sociais e econômicas no campo eram bandeiras defendidas pelos Estudantes de Agronomia do Brasil já na década de 50. Essas bandeiras e as reivindicações pela Reforma Agrária, foram silenciadas no meio estudantil e no campo, pelo golpe de 64. Já na década de 70, os Estudantes organizados na FEAB começaram a discutir e defender abertamente as necessidades na melhoria da qualidade de ensino, questionar e criticar as transformações ocorridas na agricultura.

Um marco neste período foi o início das discussões sobre a Agricultura Alternativa (AA), com os Encontros Brasileiros de Agricultura Alternativa (EBAA´s), como marco das discussões e da crítica ao modelo de agricultura que se estabeleceu no país, pode ser colocado o XI Congresso Brasileiro de Agronomia (XI CBA – 1979 – Curitiba – PR). Segundo Da Ros (2005), o processo de abertura política e a conjuntura da década de 80 foram fundamentais para a definição da proposta política de construção dos Estágios de Vivência, o que era sustentado por três aspectos fundamentais, a saber: a forte crítica ao modelo de formação profissional, implementado nas universidades brasileiras, por parte dos estudantes de Agronomia; a retomada das ações dos MSP´s, em especial as ocupações de terra no final da década de 70 e início dos anos 80 e a afinidade política entre a FEAB e as executivas de curso e o MST.

Esta afinidade política foi consolidada a partir de 1985, com a relação orgânica entre os estudantes de algumas escolas do Brasil com o movimento. Segundo Silva (1996), as escolas de Agronomia do Sul do país tomaram a iniciativa nesse processo, através de estágios, pesquisas e trabalhos de extensão, sendo exemplos: o Projeto Universidade na Roça da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC; a criação do Grupo de Apoio ao Movimento Sem Terra –GAMST, em Santa Maria – RS; a criação do NOAR, no Rio de Janeiro – RJ e a criação do Grupo de Estudos em Agricultura Ecológica – GEAE, em Curitiba – PR, bem como tantas outras que poderiam ser mencionadas. Todas estas experiências eram discutidas nos Encontros Nacionais dos Estudantes.

Do acúmulo destas discussões surgiu a proposta de realização dos Estágios de Vivência – EV, tendo como primeira experiência a realização do EV no ano de 1989, na Escola de Dourados – MS, já dentro das deliberações do 31º CONEA, realizado em Piracicaba – SP, 1988 (Silva, 1996). Inicialmente tinha-se como objetivo colocar os estudantes de Agronomia em contato com a realidade agrária e agrícola do país, a fim de organizar grupos de estudo e projetos de desenvolvimento e extensão; outro objetivo era a formação de monitores para a expansão dos EV´s a nível regional e nacional.

A partir desta experiência pode-se analisar a importância do EV para o público envolvido, pois propiciava aos acadêmicos uma contribuição à formação profissional. A universidade passou a fazer uma reflexão sobre a adequação dos currículos às demandas sociais. Neste sentido, os MSP´s propiciaram aos estagiários a formação de profissionais com maior comprometimento com a realidade camponesa (Da Ros, 2005). Para analisar os 17 anos de realização do EV pela FEAB e o MST e demais organizações, utilizar-se-á a divisão de Da Ros (ibidem, idem p.17), a qual divide a história dos estágios em três fases, das quais citar-se-á os principais fatos políticos.

Primeira fase entre os anos de 1989–1990: diz respeito aos primeiros estágios, que ainda tinham o caráter disciplinar, ou seja, eram realizados apenas por estudantes de Agronomia, a experiência de Dourados contou com a participação de estudantes de Agronomia do Centro-Oeste. A segunda edição do EV foi realizada em Santa Catarina, e contou com a participação de estudantes de Agronomia de 12 universidades, tal experiência foi realizada pelo NTP–MS1. Como destaque vale ressaltar o fato das primeiras experiências serem disciplinares e localizadas. Ainda em 1990 ocorreu no Paraná, um estágio extracurricular organizado pelos Estudantes de Agronomia e o DCE–UFPR2 (Silva, 1996).

Segunda fase entre os anos de 1991–1996: representa o período de expansão dos EV´s para outras universidades, e a significativa mudança no caráter interdisciplinar, o que faz com que o EV se transforme em Estágio Interdisciplinar de Vivência (EIV), e passasse a abranger outras áreas do conhecimento. O primeiro EV com caráter interdisciplinar foi realizado no Paraná no ano de 1991, e foi promovido pelo DCE–UFPR. Outros estágios foram realizados com destaque para o II EIV de Santa Catarina, no ano de 1992, com a participação de 39 estudantes de 11 cursos diferentes; em 1993 realizou-se um EIV em Maringá–PR, com 20 estudantes de nove cursos diferentes; também em 1993 seria realizado pelo NTP–JC3 um EIV em Areia–PB; em 1995 o EIV é realizado em Botucatu–SP pela CR–VII4 e em Maringá–PR; em 1996 é realizado no Norte do Espírito Santo pela CR-III, em Pelotas–RS e em Viçosa–MG.

Merece destaque a premiação do Estágio de Vivência – EV, pela UNESCO no ano de 1992, como iniciativa da juventude na América latina, porém segundo Silva (1996), tal fato apresenta-se como uma contradição para a militância da Federação, pois:
“(…)Um Estudante de Curitiba (Miguel Ângelo Perondi) enviou esta experiência em um concurso da UNESCO como sendo uma atividade promovida por ele e recebeu em setembro de 1992, um prêmio a nível Latino-americano. Para a FEAB foi um exemplo de que as atividades tinham reconhecimento dessa magnitude, porém, esta ação teve grande repercussão na FEAB, pois, o estudante apropriou-se de uma idéia desenvolvida por todo o Movimento Estudantil da Agronomia e demais entidades, levando um mérito indevido”.

Outro mérito deste período é o fato da Coordenação Nacional da FEAB em 1994 apresentar uma proposta de implementação de um Programa Nacional de Estágio de Vivência, a ser realizado nas escolas que compunham as sete regionais da FEAB, além de indicar a realização dos estágios com comunidades de agricultores familiares, pescadores e indígenas.
Terceira fase entre 1996 até os dias atuais: a segunda metade da década de 90 é marcada pela expansão das ocupações de terra, tendo-se o MST como principal Movimento Social Popular a frente deste processo, que é marcado por profundos conflitos, em especial os Massacres de Corumbiara – RO, em 1995 e Eldorado de Carajás – PA, em 1996. Estes episódios marcam um período de grande comoção da população em geral, e de grandes manifestações de apoio à luta pela Reforma Agrária.

Também neste período a FEAB iniciou sua reflexão sobre a realização do Estágio Profissional, que surgiu na perspectiva de capacitação de profissionais para atuarem no Projeto LUMIAR5, além do surgimento dos Núcleos de Apoio a Reforma Agrária–NARA´s. Neste período houve uma intensificação na realização dos EIV´s, em 1997 a CR-III realiza o EIV em Lavras–MG; a CR-I realiza o EIV em Pelotas–RS e também o Primeiro Estágio Profissional; em 1998 Santa Maria–RS realiza o seu primeiro EIV e em 1999 a UFRRJ6–RJ. A partir daí várias outras universidades realizaram e continuam a realizar os EIV´s.

Outro marco na década de 90 foi o novo caráter das lutas dos trabalhadores, a partir do qual surgem outras organizações, como é o caso do Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA; o Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB, os quais durante o ano de 2000, vão construir a Via Campesina – seção Brasil.

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